04/04/2006

gazpar diz que é apoiável: Pedro Tochas e o estado da cultura

Ao estado que isto chegou... senhores do estado!

Pensei se haveria de colocar isto aqui ou não. Decidi-me por o fazer!
Sendo eu membro da mailing list do Pedro Tochas, o tal dos anúncios do Frize (que infelizmente é o único trabalho porque é reconhecido) ou para mim um dos ou mesmo O melhor stand-up comediant português (o trabalho pelo qual devia ser verdadeiramente reconhecido) e tendo recebido isto, decidi partilhá-lo.
Melhor demonstração de como está a cultura portuguesa é difícil. E não só a cultura... debato-me com a mesma questão que o Pedro ao nível da minha carreira académica/científica!
Aqui fica o email transcrito na íntegra e o meu apoio.


Estou numa fase muito "interessante" da minha carreira.
Por um lado, ganhei um prémio na Austrália com o espectáculo “O Palhaço Escultor”.
Por outro lado, sinto que em Portugal não tenho público para o meu trabalho.

Agora estou num dilema: qual deverá ser a direcção do meu trabalho?
Criar espectáculos para apresentar fora de Portugal, onde me dão valor,
ou criar espectáculos para o público português e ficar a trabalhar para o boneco?
Para mim não ter público é um problema muito grave.
Como eu não recebo qualquer apoio do estado, o público é que me paga o ordenado
com os bilhetes que compra; nem todos podem criar coisas sem pensar no
eventual público que vão ter, pois é... porque eu não faço cinema português!

Depois de pensar no assunto, chego à conclusão que em Portugal deve haver
umas 3000 pessoas que vão aos meus espectáculos num ano (estou a ser optimista, claro).

1500 em Lisboa
500 no Porto
500 em Coimbra
500 no resto do pais
(todas as estimativas por excesso)

Na Austrália tive mais do que isso num dia e ainda recebi um prémio.
Em Edimburgo tenho 400 a 500 pessoas por espectáculo, com um ou dois
espectáculos por dia, durante três semanas e meia.
Por muito que goste de Portugal, estes dados dão que pensar.

Quando se aproxima uma temporada no Teatro da Trindade, ainda penso mais nisso.
Será que vai aparecer alguém? Vou vender bilhetes que cheguem para pagar a sala???
Caso venda poucos bilhetes, posso concluir uma coisa: O sonho acabou...em Portugal.
Ou então começo a fazer filmes, 1000 espectadores para um filme apoiado pelo
estado em um milhão de euros é o normal.

Mas não, eu gosto de ter público, quero partilhar o meu trabalho com o mundo,
não gosto de fazer coisas só para um pequeno grupo de amigos. Por isso, agora é só esperar para ver qual é a adesão ao meu trabalho.

Desculpa o meu desabafo, mas cada vez que volto a Portugal, depois de passar
tempo fora, acontece isto:
Venho cheio de vontade de fazer coisas, de desenvolver novos projectos,
de partilhar o que aprendi, acima de tudo, regresso cheio de entusiasmo criativo.

Mas basta um dia….ler um jornal…..ver uns minutos de televisão (feita em Portugal)….
Olhar à minha volta e ver:
Um País que é um paraíso para a corrupção e os corruptos, onde o povo os apoia e até os elege para cargos públicos.
Um País onde o sistema jurídico simplesmente não funciona, mas onde o povo gosta de seguir as novelas legais.
Um País onde os chico-espertos são valorizados e os competentes desprezados.
Um País onde nunca ninguém é responsabilizado por aquilo que faz, porque isso é coisa dos outros.
Um País onde a esperança num futuro melhor é coisa do passado.
E todo esse entusiasmo desaparece.
Ainda por cima, quando fora deste país as coisas funcionam.

Mas mesmo assim, vou tentar mais uma vez.
Vou fazer uma nova temporada no Teatro da Trindade.
Será a ultima?
Não sei, mas como a venda de bilhetes está a decorrer, é o mais certo

Vou terminar com o que digo sempre que acabo um espectáculo de rua por esse mundo fora:
"My name is Pedro.
I am from Portugal.
This is what I do for a living,
I am a Street Performer,
and my job is to make people smile."

Haverá em Portugal mercado de trabalho para quem somente quer fazer sorrir?

;)

8 comentários:

inixion disse...

Infelizmente tem toda a razão....O que portugal tem de bom...falha em tantas outras coisas.

é a tal história de sempre...é a mentalidade...é a cultura...é a educação..enfim tantas outras coisas mais..o que é certo é que ele tem público, se tivesse mais exposição na tv dos portuguesinhos teria mais...

enfim...Let us wait and see...

big Z disse...

Eu sempre gostei muito do trabalho do pedro tochas, apesar de só o conhecer da televisão, em pequenas participações, como no programa da Maria, e nos anuncios da frize, sei que ele tambem se dedica a fazer espectaculos de rua para miudos e graudos, vestido de palhaço.
Dou-lhe bastante valor, é um bom comediante, melhor do que muitos que andam aí, mas lá está, se ele não tiver mais exposição e divulgação nos meios de comunicação, é complicado...

Mikael disse...

Também eu gosto do Tochas, mas percebo que o seu trabalho não é para todos os gostos. Não é o humor fácil que os Portugueses estão à espera. A sua loucura durante os espectáculos é contagiante, especialmente quando nos apercebemos que a maioria é improviso.

Uma vez, à vinda de Londres, cruzei-me com o Tochas. Acabámos por vir no mesmo avião para portugal. Ele veio no banco mesmo atrás de mim e passei grande parte da viagem a pensar se lhe dirigia a palavra. Decidi não ocupar o espaço dele, mas se o tivesse feito tinha-lhe dito: "Continua o teu bom trabalho, mesmo que a maioria das pessoas não o aprecie". Hoje não sei se lhe diria a mesma coisa. Depois de terminado o meu curso deparo-me com um dilema semelhante ao dele. Vou para fora onde posso ser "reconhecido" pelo meu trabalho e arranjar um bom emprego, ou fico mais uns tempos em portugal a trabalhar de borla num laboratorio qualquer à espera que a oportunidade surja? Como não tenho cunhas nem "patrocinios" vai demorar para que essa oportunidade surja, logo acho que vou mesmo para fora.

É uma pena que se tenha que sair de Portugal para se conseguir ter mérito por aquilo que se faz...

Desculpa pelo longo comentário.

Tongzhi disse...

E quantos Pedros, Mikaels e Gazpares haverá por aí...

Lampejo disse...

Infelizmente tem toda a razão do lado dele.
Pessoalmente concordo especialmente com a seguinte passagem:
“Um País onde os chico-espertos são valorizados e os competentes desprezados.
Um País onde nunca ninguém é responsabilizado por aquilo que faz, porque isso é coisa dos outros.”
Desculparmos com o facto destes e outros erros serem fruto da cultura, educação, de sermos um povo latino, para mim não passa de um desculpa esfarrapada, uma simples fuga a verdade e a responsabilidade, como se nós escondêssemos por detrás de um biombo qualquer.
Assomamos de uma vez os nossos erros e deixemos de culpabilizar o "passado", a "má herança", afinal de que serve dizer que "aprendemos com os erros "...!!!????

gaZpar disse...

inixion: pois... o problema é que ele sempre optou por não se expor (admiro-o bastante por isso). Teve bastantes propostas mas nunca se "prostituiu" a esse nível. Bastava ir ao levanta-te e ri...

Big zz: no programa da Maria ele fazia um papel muito bom (morava no sótão daquela casa... estranha!). De facto ele faz trabalhos de rua como o palhaço escultor, entre outras coisas. Até diria que na frize é o pior trabalho dele (dentro do bom). Onde ele é melhor é com público. Mas essa é a minha opinião!

Mikael: não. não é humor fácil. ainda que já tenhamos evoluido um bocadinho desde o humor tipo "malucos do riso" ainda há muito a fazer. O improviso dele é um dos segredos do sucesso. Uma dica: não chegar atrasado aos espéctaculos dele! eh eh eh
Mas debato-me com as mesmas questões do que tu! Mas podemos fazer a diferença... se voltarmos! ;)
stá à vontade para fazer longos comentários. ;)

Tongzhi: pois... bastantes. Como sabes estou em Inglaterra e de facto as condições são melhores. Mas voltarei. ;) Talvez de pois do reconhecimento lá fora seja reconhecido cá dentro... ouviste Tochas?! ;)

Tongzhi disse...

Assim é que é pensar :)
Cá te esperamos a torcer para que tudo vá dar certo :))))))

gaZpar disse...

lampejo: De facto não é só um problema português. É um problema do ser humano e ao dizermos isso apenas nos desculpabilizamos!
E depois há a celébre: "eu sou só uma pessoa. só eu não consigo mudar as coisas". Mas se todos pensarem assim...

Tonzhi: apesar de tudo continuo optimista. Apesar de achar que se houvesse forma de não ter de ir para o estrangeiro era preferível. Mas...